Cristina Esteche

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Ele ‘rachou o bico de rir’, mas perdeu uma parte porque atendia o telefone

Gentili e Porchat: censurados e liberados (Foto: Divulgação)

O filme do humorista Danilo Gentili, que pauta a polêmica da semana na mídia nacional, é um exemplo de censura em pleno século 21. Tudo bem que a película é horrível, ‘embalada’ num mau gosto ímpar, que nem pode ser classificada como tragicômica. Mas o fato é que por detrás das críticas tardias há interesses políticos. Tanto é que  as plataformas de streaming da Rede Globo, Globoplay, Telecine e Netflix descumprem a ordem dada pelo Governo Bolsonaro e não retiraram o filme do ar. Isso porque, segundo a Globo, a decisão do Ministério da Justiça ofende o princípio da liberdade de expressão. Além de ser  inconstitucional.

O filme é ruim? Não! É extremamente péssimo e traz  em determinado momento e de forma grotesca, um dos crimes mais hediondos: a pedofilia. Aprovado pela censura, pelo Ministério da Justiça durante o Governo de Michel Temer, a classificação foi liberada para 14 anos. E aí está o equívoco. Por que não houve classificação para 18 anos? E o que é ainda pior. Esse mesmo filme foi exaustivamente elogiado pelo deputado federal Marco Feliciano. Pastor fundamentalista cristão, fundador e líder da Catedral do Avivamento, uma igreja pentecostal ligada à Assembleia de Deus, ele mesmo indicou que os fieis assistissem a comédia. Disse que nunca riu tanto como quando assistiu o filme.

O PIOR ELE DIZ QUE NÃO VIU

E agora pasmem. Após rever a posição cinco anos depois e criticar o filme, tenta justificar que não viu a cena polêmica de “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”. Disse que naquele momento estava ao telefone. A cena, mostra o personagem caricato de Fábio Porchat, pedindo para ser masturbado por dois adolescentes. Considerada principalmente por bolsonaristas, mas sem excluir petistas, essa parte é uma  apologia à pedofilia.

Embora a cena seja de mau gosto, segundo alguns juristas especializados em arte, cultura e entretenimento, não é crime em si. Outra corrente, entretanto, mesmo que aumentassem a faixa indicativa – e isso já ocorreu –  esse ato é considerado um crime. Vale lembrar que o abuso infantil é algo muito sério e ocorre em grande escala no Brasil. E a esse soma-se outros crimes como a violência de gênero, a homofobia, a xenofobia. O que dizer sobre o racismo, a apologia ao ódio, à violência em geral, à guerra. E o fato de um pastor ungir armas, como se fosse um aval à morte violenta?

Mas falar sobre isso por que? É mais fácil criar uma polêmica sobre um desafeto – Gentili deixou de apoiar o presidente – para desviar a atenção para problemas crônicos. Que o diga a polêmica que toma conta das redes sociais e outros tipos de mídia.

CENAS REAIS

E tudo isso e muito mais não são apenas cenas de filmes, mas são recortes de um cotidiano que banaliza a vida, sem censura. Pelo contrário, são protagonistas de apologias que feitas em alto e bom som e que ganham visibilidade na mídia. Contudo, não pautam polêmicas, são levadas ao ar. Mas a julgar pela justificativa esdrúxula, eles, os porta-vozes, devem estar sempre ao telefone.

São cenas da vida real que em pleno século 21 deveriam ser censuradas, sim. Mas ao contrário, não são retiradas do ar. E para esses tipos de crimes não há classificação. Em vez de comédia, são dramas diários. São cenas reais de um filme triste. Muito triste!

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Cristina Esteche

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