Cristina Esteche

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Enquanto fico na minha bolha, torço para que outras saiam das suas

Mulheres na luta (Foto: Reprodução/Pixabay)

Quem me conhece sabe muito bem que sou uma mulher apaixonada. E olha que são muitas paixões que envolvem o meu dia-a-dia. Mas duas delas ficam cada vez mais fortes. Tipo assim, contrariando a máxima de que “paixão é como fogo de palha”. Antes que as interpretações com ‘caraminholas’ tomem conta da muitas mentes, vou logo explicando. O jornalismo e a política estão no meu DNA. Caminham juntos, agarradinhos. Como se formassem o casal perfeito.

Entretanto, essa paixão feminina prefere atuar nos bastidores. Olhando de fora, observando, percebendo. E claro, aí o lado masculino toma conta e escrevo. Mas você pode estar se perguntando por que estou com esse blá blá blá. Eu respondo: hoje fui surpreendida com um convite. Primeiro vieram os elogios, as ponderações, a tentativa de convencimento. No outro lado do telefone, lá em Curitiba, estava um medebista tradicional. Renato Adur me convidava para ser candidata a deputada. Estadual ou federal.

Confesso que num primeiro momento achei cômico. Depois me senti lisonjeada. Isso porque até então ninguém cogitou essa possibilidade. Muito menos eu. Essa prática não cabe em mim e nem para mim. Sou o que sou, o que gosto de fazer e o que faço. Saio dessa ‘bolha’ só se for para ter muitos e muitos anos sabáticos em Nova Iorque.

E nesse duo de paixão que tenho, acompanho a trajetória de muitas mulheres no meio desse segmento dominado por homens. Percebo a luta por coisas básicas, mas extremamente importantes, que só nós mulheres sabemos. Me refiro à dignidade menstrual. Só quem sangra todo mês sabe qual é a importância de um absorvente. No Paraná, por exemplo, o projeto da deputada Cristina Silvestri arrancou risos na Assembleia Legislativa. Na esfera federal, o presidente Bolsonaro vetou a criação do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual.

Mas por que cito esses episódios? Para mostrar a importância de  lideranças femininas na defesa de políticas públicas para mulheres. Um ‘peso’ que é reconhecido pelo ex-ministro Luís Roberto Barroso, até esta quinta (17), presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ele defendeu, em entrevista à Revista Exame, o aumento da participação das mulheres na vida pública brasileira por duas razões. A primeira, por uma questão de justiça de gênero. “Homens e mulheres dividindo equitativamente os espaços de poder”. A outra, segundo o ministro, é que as mulheres têm virtudes e características que agregam valor à vida pública. “Não por acaso, alguns dos países que mais bem se saíram no combate à pandemia eram liderados por mulheres”. Ele se referiu à Nova Zelândia, Alemanha e Dinamarca.

Tudo bem que ainda temos uma longa caminhada para chegar um pouquinho mais perto desses países e isso vai depender de muita evolução. Afinal, já houve um salto enorme ao ter Dilma Rousseff como chefe maior da Nação Brasileira. Mas durou pouco e veio o impeachment. Inclusive com votos femininos.

Agora, neste ano, teremos eleições. E em pleno Século 21 aqui na ‘terra brasilis’  é preciso ficar atenta. Os partidos políticos correm desvairadamente atrás de lideranças femininas, mas elas têm que ser competitivas. É preciso ter um olhar muito atento à essa questão. Afinal, temos aí o dinheiro do fundo eleitoral, a composição obrigatória da chapa e, acima de tudo, a mudança significativa nas regras eleitorais, com o fim da coligação no proporcional.

Vale lembrar que o preenchimento das cotas buscava apenas cumprir a exigência legal de 30% de mulheres nas chapas. Hoje, a lei diz que a cota deve ser preenchida de forma individual, por cada partido. E que a soma dos votos que conta para o preenchimento de cadeiras deve ser apenas de cada partido. Ou seja, os homens precisam atrair mulheres com interesse real em serem eleitas. Isso, sob a pena de redução do número de candidatos homens das chapas por falta de candidatas.

Portanto, essa busca não se trata de uma abertura masculina para o feminismo. É apenas uma equação matemática. Bom, prefiro ficar olhando tudo isso de dentro da minha bolha. Mas confesso que cruzo os dedos para que outras, com coragem, saiam das suas bolhas e mudem a realidade. E isso só será possível quando as mulheres ocuparem todos os espaços de poder e tiverem voz ativa na política.

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Cristina Esteche

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