Cristina Esteche

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Meu tributo a Nivaldo Kruger

Estou desde a manhã desta quarta (14) tentado colocar em palavras o sentimento que tenho com a passagem do meu amigo , daquele que costumava me chamar de filha. Quem me conhece sabe que não convivo muito com perdas. E hoje acordei com elas. Perda do amigo, do ‘pai’, daquele que ensinou a gostar de política, a conhecer os meandros dessa ciência que me fascina. Conversar com Nivaldo Kruger era assim. Uma  lição de tudo.

O escritor me mostrou como é fácil escrever olhando além do que se vê. O político, aquele que apostou em mim quando, sem mesmo me conhecer direito, confiou a mim a assessoria de imprensa no último mandato como prefeito. Esse foi o meu primeiro emprego, a base sólida que me dá sustentação até hoje. O ‘pai acolhedor’ me ensinou a não ter medo de nada. “Se você tiver medo nunca vai fazer alguma coisa”. Bastou me dizer isso uma vez. Já, o fotógrafo me chamou à janela da Prefeitura para me apontar a melhor luz para fotografar em dias de outono.

Quantos fins de tarde nos sentamos – eu, ele e o Orlando – à janela da minha morada. Ele tomando chimarrão e nos contando causos. O olhar dele viajava no tempo. Mas em cada frase havia uma lição. Até mesmo dando palpites na casa que estávamos construindo. Hoje ela guarda um pouco dessa presença. Falava dos tempos de menino, de quando foi prefeito pela primeira vez aos 22 anos. E enchia os olhos de amor quando lembrava dos tempos de namoro com Dona Lenita. Viveram  juntos por 75 anos de casamento e uma das filhas me contou que um dia antes de deixar este mundo ela pediu pra casar com ela de novo. Me falou até da música que embalava o romance: Fascinação. “Os sonhos mais lindos sonhei. E vivi”, me disse ele.

E o que dizer do Nivaldo poeta que com palavras simples conseguia poetizar? Também conheci o Nivaldo Kruger sonhador. Aquele prefeito que sonhou em um dia transformar Guarapuava num ‘cinturão verde’. Era o ‘Planalto Verde’, programa que previa a diversificação de atividades nas pequenas propriedades rurais, gerando renda, contendo o êxodo rural e colocando comida na mesa urbana.

Andei muito pelo  interior de Guarapuava. Ele dizia que ia me ensinar como fazer política. Batendo de porta em porta, erguendo a tampa na panela, brincando com as crianças ou comendo pão com linguiça no boteco à beira da estrada. Nivaldo Kruger era assim. Um homem simples, um político sagaz. Homem de palavra, da promessa do ‘fio de bigode’, que adorava cavalgar e o fez até os 92 anos de idade. Depois, o avançar da idade, a fragilidade da saúde e por, último, uma queda, o tiraram, aos poucos, de cena.

“Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar” (Fragmento da música de Raul Seixas – Canto para minha morte)

Ele, Nivaldo Kruger, se foi para outras plagas. Mas as lembranças, as obras físicas e materiais, os escritos, ficam para imortalizá-lo na história. E enquanto nós continuamos por aqui, com a saudade da ausência, ele vai cavalgar, olhando de longe o planalto verde.

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Cristina Esteche

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