Cristina Esteche

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Uns lavam as mãos, outros [o povo] liberta bandidos

Em tempo de ilusão pascal (Foto: Pixabay)

Não tem como esquecer as ‘páscoas’ da minha infância. E uma das coisas que mais me marcou é que todos os anos, minha ‘abuelita’ Aurora, me pegava pelas mãos e lá íamos à Igreja. Ali na Matriz Santa Terezinha, bem pertinho da casa onde morava com meus irmãos, pai e mãe. Todas às ‘Sextas Santas’, dia da Paixão e Morte de Cristo, lá ia eu beijar os pés do Jesus morto. Confesso que ia com os olhos fechados. Afinal, não convivo nada bem com esse lance de morte.

Mas entre tanta violência que sangra essa parte da história de Jesus, tem uma parte que sempre me chamou a atenção. Ou melhor, me causa indignação até os dias de hoje. De acordo com as escrituras sagradas, o envolvimento político se faz presente também na saga cristã. Sempre na Páscoa, segundo a história, o governador romano soltava um judeu da prisão. Nessa época, o cargo era ocupado por Pôncio Pilatos – aquele que lavou as mãos. Isso porque, ele entendia que Jesus era inocente das acusações que recebia e pelas quais foi atrozmente penalizado. Então o governador repassou a responsabilidade da sentença ao povo. Entretanto, entre Barrabás, um assassino cruel, e Jesus, o povo ‘cego’ pelo ódio e pela indução, libertou o bandido. Assim sendo, Jesus acabou sendo cruxificado ao lado de dois ladrões.

E hoje?

E nos dias de hoje? Houve alguma evolução? Claro que houve. Mas no método de crucificação que se tornou muito rápido, instantâneo. Agora a atrocidade ‘viaja’ pelas redes sociais. Milhões de inocentes são mortos, dissecados pelas palavras que transpiram o ódio. A intolerância, o desamor tomou conta e prolifera como o mais cruel dos vírus. Não nos reconhecemos mais como sendo seres da mesma espécie. Nos enxergamos como o mais cruel dos inimigos. A saga, a violência, passou a fazer parte do nosso cotidiano. A guerra não está lá entre a Ucrânia e a Rússia. Está aqui, à nossa frente, ao nosso lado, nas punhaladas que são dadas pelas costas, na necropolítica que toma conta do país.

Diariamente a fome crucifica pessoas. A arrogância, a sensação do falso poder, as mentiras, e tantas outras aberrações encobrem a empatia, a tolerância. E a morte? Ah! Ela se faz presente acabando com a humildade, com a solidariedade, com o amor ao próximo, com o respeito às diferenças. Por isso, mais do que nunca sinto saudades das ‘páscoas’ da minha infância. Do tempo onde a arte de transformar qualquer pedaço de cartolina num ‘ninho’ para o ‘coelhinho botar’ dava prazer. Quando a expectativa dos ovos de chocolate superavam o medo de beijar os pés de uma estátua de gesso, literalmente, sem vida.

Mas como o que temos para hoje é o desejo de Feliz Páscoa, completo dizendo que a ressurreição, que é a simbologia da data, se traduza em novos conceitos, nova vida, na renovação da esperança de um futuro sempre melhor e mais humano.

Há controvérsias

Qual Judas será o mais malhado nesta Páscoa?

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Cristina Esteche

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